quarta-feira, 6 de julho de 2011

Acorrentado

As estrelas do céu têm que brilhar,
Mesmo estando o céu bastante nublado;
E as lágrimas devem se derramar,
Mesmo o rosto sem poder ser molhado.

Não pode um beija-flor ser condenado
A das rosas amadas se afastar,
Ainda que elas tenham que enfeitar
Os arranjos da festa de noivado...

E, se as coisas são assim... como então
Acorrentar calado o coração
Na presença daquela que o enfeitiça?

Um desejo assim forte... imperecível...
Forçado a sufocar...! Como é possível
Suportar tão dolorosa injustiça?!

terça-feira, 5 de julho de 2011

Quando os sonhos dão medo

Alegram-me confidências trocadas,
E as promessas de amor, mesmo às escuras;
Mas tenho medo de que sejam duras
As horas do porvir... esvaziadas...

As intenções, conquanto sejam puras,
Não valem se não forem alcançadas.
E tremo ao pensar vê-las afogadas
Num futuro de dores e amarguras...

Meus melhores sonhos são pesadelos
Pois morro de medo de despertar
E achar-me sozinho, a cama vazia!

Porém temo também deixar de tê-los,
E não ter, pros meus dias alegrar,
Sequer o sonho... nem a fantasia...

A lembrança preferida

Pra cantar os amores desta vida,
Preciso de uma dose de ilusão;
A fim de que minh'alma dolorida
Possa enfim suportar-lhes a visão.

Pintar meu machucado coração...
Ah, só numa aquarela colorida!
Pra que as cores escondam o que são
As mágoas que acumulei nesta vida.

Pra mostrar os segredos do meu peito
Pelos quais não sinto prazer nenhum,
Só de olhos fechados e alma fingida!

São assim todos, enfim... menos um:
Dentre todos só tu tens o direito
De seres a lembrança preferida.

domingo, 3 de julho de 2011

Meu sonho não virou realidade

Eu abrira mão da felicidade
Quando julguei não poder ser feliz;
Ao perceber que desenhos de giz
Somem depressa... não são de verdade...

Quis ser dono do meu próprio nariz,
Vaguei por tantas ruas da cidade...
Meu sonho não virou realidade
E não me veio a paz que eu sempre quis

Abri por tantas vezes meu caminho,
E enquanto eu caminhava, eu percebia
A mágoa de viver tanto sozinho.

E, olhando pra mim mesmo, eu nunca via
Tu, calada, oferecendo-me vinho...
A taça transbordante de alegria.

Que traduz felicidade

Quis apagar as lembranças
Do que poderia ter sido,
De tanto tempo perdido
Em minhas muitas andanças.
Mas tu, que sempre me alcanças,
Me encantas quando sorris,
Tu, que és tudo quanto eu quis,
Que traduz felicidade...!
É vão fugir da verdade:
Só contigo sou feliz...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Diferente

Se arrependimento matasse...
Alguém disse, certa feita,
que voltar no tempo seria tão-somente
assistir todas as coisas acontecerem mais uma vez.
Gosto de pensar que seria assim.
Gosto de pensar que eu não poderia ter feito diferente,
porque assim a tristeza presente parece menos triste,
por ser inexorável.
Uma vez que a tristeza mais triste
é aquela que é poderia não ser;
que é por culpa nossa.
Porque junta-se a tristeza presente
à tristeza do erro passado
e à do futuro sombrio.
Sim, gosto de pensar que não poderia ser diferente...
Pois só assim consigo tolerar o agora.